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O Avesso do Compliance: Trecho Censurado


Eu vivi o avesso do compliance na Faria Lima. E paguei o preço máximo por isso.


Há pouco tempo, eu liderava um ecossistema financeiro que gerenciava um bilhão de reais em patrimônio sob custódia. Acreditava nos controles, nos processos e na blindagem ética que o mercado promete e que os grandes bancos garantem em seus manuais de governança. Acreditava porque havia construído, tijolo por tijolo, uma estrutura pensada para funcionar da forma que deveria funcionar — com rigor, com independência, com a disposição real de dizer não quando o não era a resposta correta. Mas o Banco onde eu estava me mostrou como funcionava ...


O que encontrei, quando comecei a olhar com atenção suficiente para ver o que estava de fato circulando sob o mesmo teto que eu, foi algo que nenhum manual de compliance descreve — porque os manuais são escritos para o mundo que deveria existir, não para o mundo que existe.


Sob a mesma estrutura de gestão, circulavam contas de múltiplos condenados da Operação Lava Jato — indivíduos formalmente banidos por outras instituições bancárias brasileiras em razão do risco de contágio reputacional que representavam. E circulavam, simultaneamente, contas de autoridades públicas que haviam liderado promotorias e julgamentos no âmbito da mesma operação. No mesmo escritório. Sob a mesma estrutura de compliance que eu era responsável por operar.


Quando percebi que múltiplas contas classificadas como de alto risco pelos critérios regulatórios locais haviam sido aprovadas sem a devida diligência intensificada, e quando identifiquei que algumas delas ganhavam um bypass sistemático sendo redirecionadas para a estrutura do BTG Pactual nas Ilhas Cayman, fiz a pergunta que qualquer profissional de compliance com integridade funcional é obrigado a fazer: qual é o custo real de se tornar o responsável pela reabilitação financeira dos personagens centrais da maior operação anticorrupção da história do Brasil? Vale tudo para preservar receitas e comissões? E quem, afinal, responde pelo custo social dessa equação?


Na época, eu ainda não imaginava que o Brasil entraria no que alguns já chamam de Lava Jato 2.0 — a nova ofensiva contra os maiores cartéis do país, desta vez com os Estados Unidos acionando todo o aparato da Office of Terrorism and Financial Intelligence e da OFAC para asfixiar os fluxos financeiros do crime organizado brasileiro com uma precisão que o sistema jurídico doméstico nunca teve disposição ou independência para exercer. Vejo pânico nos boards. Vejo, ao mesmo tempo, um alívio silencioso nos departamentos de compliance que sempre souberam o que estava acontecendo e viveram anos submetidos à asfixia impositiva de estruturas que os usavam como ornamento regulatório e os puniam quando tentavam funcionar de verdade.


A guerra, no meu caso, passou a ser contra quem estava falando. Tentaram me descredibilizar e ainda me rotularam como instável. Trabalharam para invalidar minha palavra perante as autoridades que eu havia acionado no cumprimento do meu dever legal. Passei por isolamento sistemático, pressão institucional, trauma documentado e um período de confinamento que, pelos seus efeitos neurológicos reais, me forçava a hiperassociar tudo simultaneamente — o que, para quem conhece a neurobiologia do bloqueio dopaminérgico imposto por protocolos farmacológicos inadequados, não é metáfora, é descrição clínica precisa do que foi feito.


Não posso contar a totalidade do que sei de forma imediata. O que acumulei durante os anos em que atuei de frente — monitorando entretenimento, música, concertos internacionais, energia, combustíveis, esportes, editoras, estruturas religiosas e muito mais — é tão denso, e em alguns pontos tão surreal, que acredito que até eu duvidaria da história se ela me fosse relatada por outra pessoa. A lógica do que foi feito contra mim era simples e antiga: destruir o mensageiro e enterrar a mensagem.


Não funcionou. E o livro que este texto anuncia é a prova mais direta disso.


Deixo apenas uma pergunta aberta, a mesma que carrego desde o dia em que decidi que o meu dever legal valia mais do que o meu conforto financeiro: até quando bilhões sob custódia continuarão valendo mais do que integridade institucional? O compliance existe para proteger o sistema — ou para proteger o faturamento de quem o financia? E a reabilitação financeira de sentenciados: alguém no mercado tem coragem de responder, publicamente, quem assume a responsabilidade por esse custo?


O fim dessa história não será escrito por mim. Será escrito pelo asfixiamento progressivo que a nova ofensiva anticorrupção está impondo às estruturas que acreditaram que bilhões sob custódia eram proteção suficiente contra a verdade. Não são. Nunca foram. E o que está chegando não é somente corrupção de colarinho branco — é provável que vejamos narcotráfico, lavagem em escala sistêmica e estruturas ainda mais graves emergindo à superfície à medida que a pressão aumenta e os elos mais frágeis da cadeia começam a ceder.


Este texto, como tudo que publico sobre esse tema, é um extrato de obra em publicação e de conteúdo de interesse público protegido por lei. Foi escrito para persistir em existência: a verdade não tem custo judicial, a mentira tem.

 
 
 

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